Blog que pretende pôr o dedo na ferida, espicaçar consciências, sem insultos, nem acusações não fundamentadas. Blog de uma “formiga” que pretende mesmo ter “catarro”.
01 de Agosto de 2010

António Feio, permites-me que te trate por tu? Tantas vezes entraste por minha casa a dentro, tantas gargalhadas me fizeste dar, que acho que éramos íntimos, apesar de não nos conhecermos pessoalmente. Estejas onde estiveres fica sabendo que me fizeste regressar aos blogs que fui esquecendo por causa de uma rede estranha de amizades virtuais. A amizade, a admiração e o apreço que por ti tenho, não são virtuais. Existem e pretendo com este post que fiquem para todo o sempre.

 

A minha admiração por António Feio, vai além do actor e do encenador, onde fez um trabalho notável, onde como alguém disse, “ele fez com que o público se reconciliasse com o teatro”. É fácil recordar-mo-nos do actor, do encenador. Mas eu quero recordá-lo como Homem. A imagem que guardo dele e quero guardar para sempre, é a do homem que olhou a doença de frente, chamou-a pelo nome, desmistificou-a e lutou com ela com todas as suas forças, até não poder mais e sucumbiu por KO, que só pode ter sido técnico. A graça e o humor com que sempre encarou a terrível doença que lhe bateu à porta, são para mim inesquecíveis. Já vi, revi e voltei a ver, a brilhante entrevista que deu à SIC, ao programa Alta Definição. Como é possível, alguém que tem um cancro, alguém que tinha visto morrer a irmã também com um cancro há menos de uma semana, ter aquela capacidade de olhar em frente, sem baixar os braços, prometendo ao cancro dar-lhe luta, e lutar pela vida até ao limite das suas capacidades. É de Homem.

 

Pela primeira vez, vi alguém chamar a terrível doença pelo nome. É cancro e não uma “doença prolongada” como lhe costumam chamar quando alguém famoso morre com esta doença. Se bem a conheço e lamentavelmente conheço-a bem de perto, porque já levou alguns dos meus familiares directos, esta doença de prolongada pode até ter muito pouco. Há casos em que é rápida, silenciosa e absolutamente fulminante. Não sei porque não a chamam pelo nome. António Feio chamou-a e até brincou com ela. E lutou, e lutou. Não foi por falta de luta que a doença lhe ganhou, foi mesmo por KO técnico. Paz à sua alma.

 

Faz agora aproximadamente um ano que escrevi aqui sobre outro grande nome do teatro que tinha acabado de morrer, Raul Solnado. Na altura terminei o texto com uma máxima dele: “façam o favor de ser felizes”. Hoje termino com um apelo de António Feio: “façam o favor de gostar uns dos outros”. Valerá mesmo a pena não gostarmos uns dos outros, ou de não sermos felizes? Afinal, a vida são mesmo dois ou três dias e não é mais do que uma peça de teatro…

publicado por Luis Simão às 12:45
20 de Janeiro de 2010

 

Estou de volta à blogosfera, depois de passadas as festas e a ressaca de mais uma passagem de ano. Não era este o tema que esperava abordar no meu primeiro post de 2010. Mas, infelizmente, a vida tem destas coisas. De tempos a tempos a terra irrita-se e provoca mais um drama à escala mundial. Aconteceu no Haiti, mais uma vez. No último século foram 12 os grandes sismos que aconteceram neste que é o país mais pobre do Mundo. E como se este drama, por si, não lhes bastasse, eis que, de quando em quando, dá umas tremuras à Terra e tudo cai, como um frágil baralho de cartas. É triste. Não imagino a dor daquelas pessoas. O sofrimento que um acontecimento destes provoca deve ser brutal. E digo deve, porque não imagino o grau de brutalidade que é passar por uma situação destas.
 
No dia em que este terrível sismo aconteceu, lembro-me de ter visto um dos noticiários de uma televisão portuguesa, não me lembro em que canal, mas lembro-me vagamente do pânico das pessoas, da dor estampada nos rostos, das pessoas que corriam ensanguentadas, em busca de auxílio, ou tentando ajudar alguém. Outras, paradas, solitárias, deprimidas e incrédulas, olhavam com um olhar empoeirado para a destruição em seu redor, como que carregando baterias para o que vem a seguir, como que definindo mentalmente as prioridades… “e agora?”, deve ser a pergunta que lhes ecoa na cabeça, misturada com gritos de dor, com pedidos de auxílio que chegam de todos os lados. É terrível.
 
Confesso que estas imagens mexem comigo. Haverá alguém que consiga olhar para este cenário com indiferença? Não creio. É impossível. Mas, nesse mesmo noticiário houve algo que me chocou muito mais, que mexeu verdadeiramente comigo. Às imagens atrás descritas vamo-nos habituando. Sempre que uma destas tragédias ocorre, são as imagens de destruição, de desespero as primeiras a chegar. Mas é nos pormenores que somos verdadeiramente surpreendidos. Nesse noticiário, um jornalista contava com emoção o cenário desolador que tinha visto na rua. A emoção era tal, que começou a chorar com as lágrimas a lavarem-lhe o rosto. Pediu desculpa, virou a cara e conseguiu recompor-se. E depois conta que viu uma criança, com 5 ou 6 anos, que andava pela rua procurando os pais. E isto é algo que mexe mesmo comigo. Esta á a dor, o sofrimento que por mais que queira não consigo imaginar, mas deixa-me arrasado.
 
Resta-me deixar aqui uma palavra de solidariedade para com todas as vítimas, uma palavra de conforto, que de pouco serve, mas que a mim me deixa mais sereno. Deixo aqui também o reconhecimento a todos quantos abandonam o conforto do seu lar, das suas famílias, dos seus países e se deslocam, sem olhar para trás, para estes cenários, para ajudar da forma que puderem. A todos os membros de ONG de todo o Mundo que o fazem, a todos os anónimos que também o fazem por conta própria, o meu reconhecimento e o meu obrigado, por ajudarem por mim, por ti, por todos. É reconfortante saber que, haja o que houver, estas pessoas existem.
 
 

 

 

publicado por Luis Simão às 13:00
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