António Feio, permites-me que te trate por tu? Tantas vezes entraste por minha casa a dentro, tantas gargalhadas me fizeste dar, que acho que éramos íntimos, apesar de não nos conhecermos pessoalmente. Estejas onde estiveres fica sabendo que me fizeste regressar aos blogs que fui esquecendo por causa de uma rede estranha de amizades virtuais. A amizade, a admiração e o apreço que por ti tenho, não são virtuais. Existem e pretendo com este post que fiquem para todo o sempre.
A minha admiração por António Feio, vai além do actor e do encenador, onde fez um trabalho notável, onde como alguém disse, “ele fez com que o público se reconciliasse com o teatro”. É fácil recordar-mo-nos do actor, do encenador. Mas eu quero recordá-lo como Homem. A imagem que guardo dele e quero guardar para sempre, é a do homem que olhou a doença de frente, chamou-a pelo nome, desmistificou-a e lutou com ela com todas as suas forças, até não poder mais e sucumbiu por KO, que só pode ter sido técnico. A graça e o humor com que sempre encarou a terrível doença que lhe bateu à porta, são para mim inesquecíveis. Já vi, revi e voltei a ver, a brilhante entrevista que deu à SIC, ao programa Alta Definição. Como é possível, alguém que tem um cancro, alguém que tinha visto morrer a irmã também com um cancro há menos de uma semana, ter aquela capacidade de olhar em frente, sem baixar os braços, prometendo ao cancro dar-lhe luta, e lutar pela vida até ao limite das suas capacidades. É de Homem.
Pela primeira vez, vi alguém chamar a terrível doença pelo nome. É cancro e não uma “doença prolongada” como lhe costumam chamar quando alguém famoso morre com esta doença. Se bem a conheço e lamentavelmente conheço-a bem de perto, porque já levou alguns dos meus familiares directos, esta doença de prolongada pode até ter muito pouco. Há casos em que é rápida, silenciosa e absolutamente fulminante. Não sei porque não a chamam pelo nome. António Feio chamou-a e até brincou com ela. E lutou, e lutou. Não foi por falta de luta que a doença lhe ganhou, foi mesmo por KO técnico. Paz à sua alma.
Faz agora aproximadamente um ano que escrevi aqui sobre outro grande nome do teatro que tinha acabado de morrer, Raul Solnado. Na altura terminei o texto com uma máxima dele: “façam o favor de ser felizes”. Hoje termino com um apelo de António Feio: “façam o favor de gostar uns dos outros”. Valerá mesmo a pena não gostarmos uns dos outros, ou de não sermos felizes? Afinal, a vida são mesmo dois ou três dias e não é mais do que uma peça de teatro…